Do trabalho agrícola à formação de comunidades, o diplomata civil leva ao Encontro Mundial dos Diplomatas uma visão de desenvolvimento construída entre Angola, Zimbabwe e África do Sul.
Em algumas comunidades remotas da província de Mashonaland Central, no Zimbabwe, crianças percorriam até 16 quilômetros diariamente para chegar à escola. A distância não representava apenas cansaço. Revelava como o acesso à educação pode ser determinado pelo lugar onde alguém nasce. Foi diante dessa realidade que Paulo Vicente passou a colaborar na criação de uma instituição educacional para a região.

Natural de Dundo-Chitato, na província angolana da Lunda Norte, Paulo é engenheiro agrônomo, Diplomata Civil de identificação 4363 e profissional sênior reformado da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Também integrou o quadro sênior do Ministério da Agricultura e Florestas de Angola.
A experiência acumulada nessas instituições orienta uma fase dedicada ao desenvolvimento inclusivo. Nos últimos quatro anos, seu trabalho concentrou-se em idosos, populações rurais, mulheres e crianças vulneráveis.
“Minha abordagem enfatiza a partilha de conhecimento entre países, reconhecendo que os desafios podem ser comuns, mas as soluções precisam ser contextualizadas e orientadas localmente”, afirma.

Em Angola, Paulo criou e coordena uma organização não governamental voltada à educação, ao fortalecimento de escolas rurais, à inovação agrícola e à proteção ambiental. A plataforma promove conhecimentos práticos, como técnicas simples de análise do solo, agricultura climaticamente inteligente e gestão sustentável das terras utilizadas por pequenos produtores.
A intenção não é apenas apresentar novas ferramentas. É permitir que o conhecimento seja compreendido, adaptado e aplicado por quem vive diariamente as dificuldades da produção. Por isso, ele também facilita formações presenciais e virtuais em Angola, África do Sul e Zimbabwe, trabalhando temas como agricultura, liderança, educação e gestão ambiental.
Outra frente nasceu com a criação do Clube Humanitário de Luanda. O grupo reúne pessoas comprometidas com ações solidárias e mobiliza recursos para necessidades imediatas e projetos de longo prazo. Entre as iniciativas está a ajuda alimentar regular a um lar de Luanda que acolhe mais de 300 crianças.
Em Malanje, o clube participa do empoderamento agrícola de 25 jovens. A rede de apoio alcança ainda Namíbia, Zimbabwe e África do Sul, mostrando que uma dificuldade comunitária pode atravessar fronteiras, assim como as respostas construídas para enfrentá-la.
No Zimbabwe, a escola em desenvolvimento pretende combinar educação com literacia financeira, produção, inovação, responsabilidade cultural e cuidado ambiental. O projeto prevê também um Centro Comunitário de Desenvolvimento para atender pais, muitos deles pequenos agricultores, com atividades de agroprocessamento, agregação de valor, formação e produção sustentável.
“Minha visão não é apenas oferecer educação acessível, mas criar uma oportunidade para que crianças rurais aprendam, cresçam e transformem as próprias comunidades”, explica.

A proposta busca aproximar a sala de aula da vida econômica ao redor dela. Crianças recebem educação, enquanto famílias encontram caminhos para desenvolver competências e melhorar a produção local. Em vez de tratar escola, agricultura e renda como problemas separados, o projeto procura reuni-los num mesmo ecossistema comunitário.
Paulo também mantém parceria com a Pimai Christian Care Trust, em Manicaland, onde projetos agrícolas apoiam órfãos e crianças vulneráveis por meio da segurança alimentar. Na África do Sul, colabora com a MMANGWETA KASAALIBRUHAN FOUNDATION NPC, organização liderada por mulheres que promove hortas domésticas.
A iniciativa sul-africana beneficia atualmente mais de 3.000 famílias e pretende alcançar 15.000 até 2030. Sua contribuição envolve o fortalecimento da governança e a capacitação do Conselho de Administração, pontos essenciais para que o crescimento não comprometa a continuidade do trabalho.
É com essa experiência que Paulo participa do Encontro Mundial dos Diplomatas 2026. Realizado de 4 a 11 de setembro a bordo de um cruzeiro MSC, o encontro reúne lideranças para diálogos globais, painéis sobre cooperação internacional e momentos de integração.

A bordo, ele leva exemplos de projetos alinhados às prioridades de desenvolvimento de Angola, Zimbabwe e África do Sul. Mais do que apresentar números, sua contribuição está na defesa de soluções construídas com participação local e colaboração regional.
“Acredito que a colaboração entre nações é essencial para enfrentar desafios comuns e construir comunidades resilientes, preparadas para sustentar seu próprio desenvolvimento”, declara.
Enquanto o navio reúne representantes de diferentes lugares, Paulo traz para a conversa pessoas que dificilmente estarão naquela mesa: pequenos agricultores, jovens, órfãos e crianças que caminham quilômetros para estudar. Sua diplomacia civil começa justamente aí, fazendo com que essas realidades atravessem fronteiras e encontrem novas possibilidades de cooperação.
